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No momento estamos desenvolvendo para publicação um artigo devotado à análise da segunda campanha italiana de Frederico I Barbarossa (especificamente voltada para alcançar a submissão de Milão à sua autoridade) sob o prisma do paradigma estratégico Vegeciano.

Públio Flávio Vegécio Renato escreveu seu tratado De re militari (também denominado Epitoma rei militaris) em fins do século IV, dedicando-o (provavelmente) ao imperador Valentiniano II ou a Teodósio I. Embora carregado de elementos nostálgicos acerca dos elementos da antiga grandeza militar romana, particularmente de suas legiões (estrutura que neste momento havia perdido a maior parte de sua efetividade bélica), o tratado de Vegécio é um documento extremamente valioso para a compreensão da situação militar de fins do Baixo-Império Ocidental: nem tanto pelo quanto mostra do declínio da infantaria, mas sim pelo que deixa de mostrar acerca da ascensão da cavalaria no exército romano, como fica claro nesta passagem:

Relativamente à cavalaria abundam os preceitos, mas, tendo essa parte do exército progredido muito graças ao hábito do adestramento, aos tipos de armas e à excelência dos cavalos, julgo não ser necessário recorrer aos livros, porquanto é suficiente a atual doutrina.

(VEGÉCIO, Flávio Renato. A Arte Militar, SP: PAUMAPE, 1995, 122)

Contudo, a grande fortuna crítica de Vegécio ocorreu durante o período medieval. O De re militari foi um dos textos mais copiados na Idade Média (apenas a BnF parisiense possui vinte cópias datadas apenas dos séculos XII e XIII), além de ter sido traduzido para vários idiomas vernaculares entre os séculos XIV e XV. Em termos de influência direta, o Livro IV de sua obra, dedicado às técnicas de assédio a fortificações (juntamente com o livro X do De Architetura de Vitrúvio) apresentou-se como um dos fundamentos para as ações deste tipo na Idade Média, já que estes tratados incorporam conhecimentos de primeira mão, uma investigação teórica e conselhos práticos para o comandante, como no caso do Conde de Anjou Geoffrey V Plantageneta. Segundo a Historia Gaufredi Ducis, em 1151 Geoffrey dedicava-se ao cerco do castelo de Montreuil-Bellay e lia o De re militari como inspiração para o prosseguimento das ações (Historia Gaufredi Ducis, ed. Halphen & Poupardin: 218-19).

Contudo, conforme elaborado por vários autores (como John Gillingham, Stepen Morillo, Clifford Rogers, John France e Bernard Bachrach entre outros), a partir de uma observação de R. C. Smail (Crusading Warfare 1097-1193) acerca da estratégia medieval, ainda mais importante que o Livro IV de Vegécio, parece ter sido o livro III, dedicado à sua “Ciência da Guerra”, de caráter essencialmente logístico, na qual as ações defensivas por excelência são aquelas ligadas à negação de suprimentos ao inimigo, impedindo-o de forragear, fustigando-o com emboscadas e escaramuças. Por outro lado, as ações naturalmente ofensivas envolvem as razias/chevauchées (tão famosas durante a Guerra dos Cem Anos), destinadas a devastar os campos à volta das cidades/fortificações assediadas. A ambos aconselha-se evitar ao máximo dar batalha campal, posto que se trata da ação mais arriscada para qualquer comandante militar, sendo imprevisível em seus resultados, sendo que o pior consiste no fato do defensor derrotado muitas vezes conseguir recuar (enfraquecido, é verdade) para suas fortificações que ainda precisam ser reduzidas uma a uma pelo atacante (embora a derrota do exército móvel do defensor auxiliasse na persuasão de castelões relutantes à rendição).

Em suma, o paradigma estratégico vegeciano prega essencialmente a PRUDÊNCIA para o comandante militar, ao mesmo tempo que a mesma era uma das virtudes mais exigidas para os governantes medievais. Não por acaso, Vegécio foi grandemente citado nas obras conhecidas como “Espelhos de Príncipes”, voltadas justamente para a formação e aconselhamento dos monarcas.

Assim, analisaremos a longa campanha de Frederico contra Milão e comunas aliadas entre 1158 e 1162 através dos pressupostos do paradigma vegeciano e, como objetivo secundário, considerarmos a aplicabilidade desta  teoria em relação à realidade militar do Sacro Império, Germânia e Itália, já que os autores devotados ao desenvolvimento da mesma concentraram-se nos territórios à volta da Normandia, ou seja, Inglaterra e França, enfatizando o papel militar dos Normandos. Concentração esta que, diga-se de passagem, ainda predomina nos estudos da História Militar Medieval.