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Wonders, Marvels, and Magic in a Divinely Ordered World: Gervase of Tilbury and Book III of the Otia Imperialia

By Jennifer Westrick

Intersecting Disciplines: Approaching Medieval and Early Modern Cultures – Selected Proceedings of the Newberry Library Center for Renaissance Studies 2010 Multidisciplinary Graduate Student Conference, edited by Karen Christianson (Newberry Library, 2010)

Introduction: Early in the thirteenth century, in the Catalan village of La Junquera next to a steep mountain filled with silver and topped with an opaque black lake, a farmer named Peter de Cabinam grew frustrated with his crying daughter and told her to go to the devil. To the farmer’s surprise, “a whirlwind of demons laid invisible hands on the girl and carried her off.” For seven years there was no sign of Pere de Cabinam’s daughter, until another local man encountered a mysterious traveler at the foot of the mountain. Bewailing his heavy burden, the traveler explained that he served as an unwilling laborer for demons, forced to dwell in the mountain and carry crippling loads for the past seven years. The local man could only believe the peculiar tale when the stranger mentioned that the missing child likewise had been a demonic prisoner during that time. The demons, however, had tired of the girl—apparently as frustrating a captive as she had been a daughter—and “would gladly restore her to him who had sent her to them, if only her father would ask for her back on the mountain.” Upon hearing his neighbor’s news, Pere de Cabinam eagerly took the demons up on their offer. The girl returned to her father, but without power of speech and with a shockingly altered appearance: “elongated in stature, emaciated, hideous, with rolling eyes, her bones and sinews and skin hardly holding together, dreadful to behold.” Unsure what to do with his disturbing charge, her father consulted the bishop of Gerona. The bishop knew a good instructional tool when he saw one, and he “set the girl in the sight of all” while delivering a sermon on the terrifying proximity of the demonic world. “Our adversary the devil,” he proclaimed, “is going about as a roaring lion, seeking someone to devour.”

Gervase of Tilbury, a twelfth- and thirteenth-century canon lawyer, courtier, imperial marshal, and historian, included this account in the third book of his Otia imperialia, along with over one hundred fifty other mysterious incidents, marvels, miracles, legends, and cautionary tales intended to amuse and edify Holy Roman Emperor Otto IV. The world in which Gervase lived and wrote encompassed a heaving jumble of political and religious conflicts, entwined loyalties, and intricate allegiances, all overlain with a chiliastic belief, expressed by Gervase as well as other writers, that the Christian world was under attack by heretical and demonic forces. In Book III of the Otia imperialia, Gervase recorded stories like Peter de Cabinam’s to entertain and instruct his audience, but also to illustrate the existence of a world so complex, ever-changing, and full of wonders, causes, and attendant effects that it could only be the work of an omnipotent deity. He used tales of devils, werewolves, wondrous creatures, and marvelous occurances—stories involving a permeable barrier between natural and supernatural, death and life—to argue against heresy and political chaos and in favor of a God who remained thoroughly involved in a created world.

(Prodígios, maravilhas e magia em um mundo divinamente ordenado: Gervase de Tilbury e o Livro III dos Otia Imperialia)

Introdução: No início do século XIII, na aldeia catalã de La Junquera ao lado de uma montanha íngreme cheia de prata e coberta com um lago preto opaco, um fazendeiro chamado Peter de Cabinam estava frustrado com sua filha chorando e disse-lhe para ir para o diabo. Para surpresa do fazendeiro, “um turbilhão de demônios puseram as mãos invisíveis na menina e a levaram.” Por sete anos não houve nenhum sinal da filha de Pere de Cabinam, até que outro homem local encontrou um misterioso viajante no sopé da montanha. Lamentando sua pesada carga, o viajante explicou que havia servido como um operário contra sua vontade para os demônios, forçado a morar na montanha e a transportar cargas incapacitantes nos últimos sete anos. O homem local só pôde acreditar no conto peculiar quando o estranho mencionou uma criança desaparecida que igualmente havia sido prisioneira dos demônios durante esse tempo. Os demônios, no entanto, haviam se cansado da menina – aparentemente ela havia sido tão frustrante como cativa quanto havia sido como filha –  e  “de bom grado devolveriam-na àquele que a tinha enviado a eles, bastando apenas que o pai a pedisse de volta na montanha”. Ao ouvir estas notícias de seu vizinho, Pere de Cabinam avidamente recorreu à oferta dos demônios. A menina voltou para seu pai, mas sem poder de fala e com uma aparência assustadoramente alterada: “alongado em estatura, magra, horrível, com olhos revirados, seus ossos e nervos e pele mal juntadas, algo terrível de se ver.” Sem saber o que fazer com sua tarefa perturbadora, o pai consultou ao bispo de Gerona. O bispo sabia que tinha encontrado uma boa ferramenta de instrução, quando via uma, e ele “colocou a menina à vista de todos” ao proferir um sermão sobre a proximidade assustadora do mundo demoníaco. “Nosso adversário, o diabo”, proclamou, “está próximo como um leão que ruge, procurando alguém para devorar.”

Gervásio de Tilbury, canonista, cortesão, marechal  imperial e historiador (entre os séculos XII e XIII) incluiu este conto no terceiro livro de sua Otia imperialia, juntamente com mais de 150 outros incidentes misteriosos, maravilhas, milagres, lendas, e contos de advertência destinados a divertir e edificar o Sacro Imperador Romano Otto IV. O mundo em que viveu e escreveu Gervásio abrangeu um emaranhado palpitante de conflitos políticos e religiosos, lealdades e alianças entrelaçadas, intrincadas, todas sobrepostas a uma crença quiliástica, expressa por Gervásio, bem como outros escritores, que o mundo cristão estava sob ataque de hereges e forças demoníacas. No Livro III do Otia imperialia, Gervásio registrou histórias como a Peter de Cabinam para entreter e instruir seu público, mas também para ilustrar a existência de um mundo tão complexo, em constante mudança e cheio de maravilhas, causas e efeitos concomitantes que só poderia ser obra de uma divindade onipotente. Ele usou contos de demônios, lobisomens, criaturas maravilhosas e maravilhosas ocorrências- histórias que envolvem uma barreira permeável entre natural e sobrenatural, morte e vida, para argumentar contra a heresia e caos político e em favor de um Deus que permaneceu completamente envolvido em um mundo criado.

http://www.newberry.org/sites/default/files/textpage-attachments/2010Proceedings.pdf

To download a german study and translation (1856) of the Otia Imperialia:

http://archive.org/details/desgervasiusvon00liebgoog